26 de junho de 2009

Sem palavras nem números

Aquele 29 de abril mais parecia dia 1º. Quarta com cara de segunda; dois terços da Universidade em recesso... E eu, ali, meio mais ou menos, respirando o disputado ar do Campus. Era a tal de Mostra das Profissões 2009. Todo o ensino básico e médio buscando entender dezenas de cursos... E eu, ali, graduadamente superior, querendo compreender apenas um. Logo mais, pelo Fiat Uno, duas câmeras, dois tripés e três bipés - Coca, Enderson e eu - se juntariam a outros quatro - Mari, Vanessa, Peagá e Aline - lá no alto da Serra. Na rua Joanésia, a serviço do Laboratório de Entrevistas conversaríamos com José Mendonça, 91 anos.

Passa Praça Sete, passa Contorno, passa Alumínio, passa Prata, passa Ouro e “ó, tesouro!” Alguém a campainha toca. A porta se abre. As mãos se tocam. Sorrisos se abrem... E eu, ali, me toco que no "um, dois, três, gravando!" tudo teria que sair 10. Aperto o fade in, pressiono o zoom out. “Mic 1 e mic 2, sem micos, okay?” Ai se os botões em inglês ofuscassem o português do professor. Ajusto a íris, bato o branco, aperto o vermelho. O tic! tac! tic! tac! do relógio logo fica inaudível.

A memória de Mendonça, não. Fala, fala, fala, como se vivesse, pela primeira vez, o advento da Comunicação. De repente, um tec! toc! anuncia que é hora de trocar a fita. O professor, então, ímpar que é, alia-se ao seu par e transforma o break em coffe break. Mistério. Café das cinco? De um lado, Maria Tereza distribui os pratos. Do outro, o marido, sem nove horas, cheio de fé, reparte o bolo que ele mesmo fizera... E todos, ali, sentados à mesa, já sem palavras nem números, experimentam com bom gosto a criação. Aqueles 91 de experiência mais pareciam 61 de idade.

Texto: Leandro Eleto e Foto: Vanessa Veiga

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